Síndrome de Down

"Por causa dela, hoje eu enxergo o que antes não via"

Síndrome de Down: “Por causa dela, hoje eu enxergo o que antes não via”

Claudete de Lima, 47 anos, explica que a chegada de Gabriela, 10, mudou sua vida

 

Claudete e sua filha, Gabriela, 10 (Foto: Arquivo pessoal)

“Aos 35 anos, eu e meu atual marido planejamos engravidar. Seria nosso primeiro filho, mas o meu segundo. Eu tinha o Jean, que hoje está com 28 anos de idade, de outro relacionamento.

Tudo caminhava bem. Faltando apenas uma semana para o bebê chegar ao mundo, fui ao obstetra e fiz os testes de sonoridade, mas o bebê não respondeu como deveria: seu coração não disparou. Todo o resto parecia ok. No dia do parto, logo após a cesárea, a Gabriela nasceu e tudo parecia certo, nenhum médico havia identificado nada.

No entanto, de repente, houve um entra e sai na sala do parto e, após algum tempo, quando eu estava lá sozinha, me informaram que a Gabriela tinha síndrome de Down. Meu marido também recebeu a notícia assim, no corredor do hospital, sem nenhum preparo. Foi muito difícil essa hora, traumatizante. Lembro que o médico disse :’Ah, é possível que tenha sido por causa da sua idade’. Isso me marcou até hoje. Fiquei me sentindo culpada, pensando, ‘por que eu fui esperar tanto para ter esse bebê, por quê?’.

Vivemos um período de luto. Aquela criança que a gente esperava não veio. Veio outra, sem nenhum manual. Passamos pelo período de revolta, do ‘por que comigo, por que eu?’. Foi difícil, mas passou. Hoje, sei que a Gabi veio como uma benção.

A sorridente Gabriela (Foto: Arquivo pessoal)

 

O primeiro ano foi muito difícil; eu tive que aprender uma enxurrada de coisas, era muita informação. A Gabi começou a terapia com apenas 20 dias para aprender a falar e andar. Hoje, ela tem uma vida normal: vai para a escola, faz natação e tem seus amigos. Às vezes, preciso que me chamem a atenção pra lembrar que ela tem a síndrome. Na escola, ela sempre foi bem recebida pelos amigos. Como eu sempre digo, criança não tem preconceito: elas só são ensinadas a ter.

Claudete só teve a notícia de que sua filha tinha Síndrome de Down na sala de parto (Foto: Arquivo pessoal)

É claro que existem dificuldades e sinto que tenho que prepará-la para o mundo e para as coisas que ela terá de enfrentar. Não quero que ela seja uma mera figurante da vida dela; tenho para mim que ela precisa ser capaz de pegar um ônibus, morar sozinha e casar.

Quando me falam que a Gabi é “especial”, digo que não. Se for assim, meu filho Jean também é especial. Criei os dois da mesma forma, sempre tratei os dois do mesmo jeito (tirando os cuidados do dia a dia que, claro, são diferentes). Aliás, ela e o Jean se são muito bem, são supercompanheiros. Ele, que antes cursava um técnico de mecatrônica, acabou migrando para a área da educação com inclusão por conta da Gabi, diz que foi influenciado por ela.

Da esquerda para direita: o pai, Carlos, Claudete, o filho Jean e a pequena Gabriela (Foto: Arquivo pessoal)

Tive muita dificuldade para encontrar uma escola para a Gabi. Ela ficou, durante cinco anos, no mesmo colégio, mas não foi alfabetizada. Ainda que se fale muito em inclusão, na prática, pouco se vê. Procurei muito por escolas da rede privada que tivessem preparo para recebe-la, mas não encontrei. No entanto, apesar do preconceito velado que encontramos, a presença da Gabi e de outras crianças com qualquer deficiência deveriam ser valorizadas. A Gabi ajuda os colegas da sala a lidar com a diferença, ela contribui para criar uma ambiente sem preconceito. Isso é importante para a formação de todos.

Penso que isso acontece porque ainda se vê a pessoa com síndrome de Down como alguém incapaz, um adulto sem desenvolvimento e cheio de generalizações. Dizem que eles são ou muito bravos ou muito amorosos. Mas não é assim. Eles são diferentes e, assim como qualquer ser humano, têm suas limitações e características.

Gabriela adora jogar futebol (Foto: Arquivo pessoal)

Por causa dela, hoje eu enxergo o que, antes, não via. Toda a família tem uma visão de mundo diferente por conta da chegada dela. Ela tem muito amor e abriu nossa mente, nos fazendo enxergar mais do que nosso próprio umbigo. Hoje, faço voluntariado, vou a congressos, participo de rodas de conversa. Enfim, quero conhecer outras realidades. Melhorei muito como ser humano por causa dela”.

Fonte: Revista Crescer

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