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Ler e escrever cedo demais. Pra quê?

Nossa colunista reflete sobre a antecipação de uma das fases mais importantes da vida da criança: a alfabetização

Por Gisela Wajskop – atualizada em 23/11/2015 17h54

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Há alguns dias vem circulando, na internet, um vídeo de um bebê de 9 meses que já sabe ler. Surpresa e curiosa sobre o assunto, dei uma busca no YouTube e encontrei diversos materiais nos quais bebês muito pequenos, alegres meninos e meninas, são testados em sua capacidade de leitura e no reconhecimento da palavra a partir de cartões registrados em letra bastão. É incrível o sucesso dos bebês e fiquei me perguntando como conquistam tão cedo estas habilidades. Mais ainda, me perguntei a serventia de tal proeza. Em um desses vídeos, um garoto de 16 meses tem de entregar a seu testador – o pai? um pesquisador? – o cartão equivalente a uma palavra pedida.

Em outro, um bebê de 7 meses entrega à mãe o cartão correto após ouvir várias vezes dela uma palavra sendo repetida silabicamente. O menino, obediente, repete o som da palavra ditada, olha em volta e, rapidamente, entrega a ficha correta. Logo em seguida, recebe um elogio, é aplaudido e continua a tarefa até que acabem todas as fichas. A cena é bizarra, pois, tal como um cachorrinho que oferece a pata ao dono, o bebê vai realizando a tarefa e a entrega à mãe/treinadora. A atividade que, aparentemente, revela conhecimento precoce não me parece, porém, significar nada além do afeto garantido, do equivalente torrão de açúcar que as crianças trocam pelo prazer adulto de antecipar comportamentos duramente treinados.

O fato de treinarmos bebês cada vez menores a identificarem nomes e palavras escritas em fichas a seus equivalentes sonoros é prática antiga e conhecida da psicologia comportamental: a capacidade imitativa das crianças associada à memorização equivale à dança de elefantes no circo. Nada que possa situar as crianças e bebês na cultura letrada e levá-las a desejar apropriar-se do sistema escrito para descobrir histórias e paisagens presentes em portadores de textos, tais como livros literários, textos informativos, jornais ou revistas. Serve, apenas, para comprovar, mais uma vez, que os homens são ainda macacos: repetem o que lhes é ordenado em troca de  um pouco de afeto! Mas não para aí minha indignação: discursos de antecipação cada vez mais precoces associados a comportamentos leitores e escritores têm confundido mães, pais e professores quanto ao prazer do uso da linguagem oral, da comunicação afetivo-gestual e da participação em ambientes de letramento que poderiam, sem dúvida, introduzir bebês pequenos no mundo mágico da leitura e da escrita presente nos livros de boa qualidade.

A ideia de antecipação de atividades por meio do treino precoce e da memorização assusta pais, mães e professores que param de pensar nos bebês e nas crianças com os quais se relacionam, focando tão somente na atividade de treino e nos resultados colhidos como se estes, por si só, garantissem as aprendizagens infantis. Ocorre que, além de fazer muito mal aos pequenos, criam uma sensação de incompetência em nós, adultos, que não nos deixamos partilhar as maravilhas da cultura tal como sabemos, ou podemos. Buscamos uma expertise que, talvez, não seja necessária. Claro, ajudar nossos bebês a aprenderem é nosso dever de adultos! Ocorre, porém, que conviver com eles no mundo letrado que está presente em cada passo de nosso cotidiano já é um grande feito: permitir-lhes manipular o jornal que chega diariamente em casa, observar as placas do carro, ler nomes de rua.

Ontem mesmo observei uma cena linda entre uma avó e seu neto que buscavam identificar o nome do pequeno de 4 anos – Pedro – em parte do nome da rua – Pedroso. Brincaram juntos por um bom tempo e Pedro saiu satisfeito, propondo a avó procurar outros nomes pelas ruas do bairro. Entendo, vocês devem pensar, mas ele não tem 7 meses! Que sorte, eu responderia! Serve exatamente para que ler aos 7 meses? E escrever tão cedo? A escrita é uma produção humana que demorou séculos para ser produzida e usada e respondeu a uma necessidade de registro histórico e ficcional de nossos antepassados. Quando um bebê começa a se perguntar o significado da escrita em sua vida, ele já começa a apropriar-se dela. Melhor ler bastante para as crianças e ajudá-las a brincar com as palavras. A leitura é um passo posterior!

Gisela Wajskop é mãe de Felipe, 32 anos, e Marcelo, 18, socióloga e especialista em educação infantil, com diversas pesquisas sobre o brincar. Aqui, ela fala sobre os desafios da educação das crianças. (sic)
E-mail: redacaocrescer@edglobo.com.br

Fonte: http://revistacrescer.globo.com/Colunistas

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