Inclusão, uma questão de humanidade

Inclusão, uma questão de humanidade

Perdi minha carteira de motorista e tive de ir às pressas ao Poupatempo do Campinas Shopping para resolver a situação. Segunda-feira de manhã, uma semana inteira pela frente… Era preciso resolver com urgência!

Entregues os documentos no guichê de atendimento do Detran, saí para dar uma volta e tomar um café, enquanto aguardava a liberação da carteira de motorista. Entro numa loja de roupas para passar o tempo e ouço: “Bem-vinda! Você conhece a nossa loja? Já tem nosso cartão?”.

Olho à direita e enxergo um rapaz, um jovem com síndrome de Down, na recepção da loja. Uma alegria aquece o peito e um sorriso de esperança brota nos lábios.

Sim, cada vez que vejo uma pessoa com Down trabalhando, ativa e, sobretudo, à vontade, me desperta uma esperança de que com minha filha de 9 anos, que também tem síndrome de Down, também será assim. A esperança de que ela, “quando crescer” terá a possibilidade de fazer tudo aquilo que um dia me segredou ter desejo de fazer: andar sozinha nas ruas, dirigir um carro e trabalhar.

Entrei feliz na loja, pensando: “Puxa vida, que legal, as empresas parecem que estão mesmo se abrindo para empregar as pessoas com deficiência!”. É certo que a legislação que obriga as empresas a reservarem uma parcela de suas vagas para pessoas com deficiência é um passo fundamental nesse sentido. Mesmo assim, colocar um jovem com síndrome de Down na porta de entrada de uma loja que pertence a uma grande rede de vestuário não deixa de ser uma ousadia.

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Marta Avancini, com sua filha Zoe: “Cada vez que vejo uma pessoa com Down trabalhando, me desperta uma esperança de que com minha filha de 9 anos também será assim” Foto: Adriano Rossa

Em meio à conversa, uma senhora sai da loja, e o alarme soa. Ela se irrita e é rude com rapaz. Ele me olha profundamente e, com os olhos marejando: “Viu o que ela me disse? Viu como ela me tratou?”. Eu retribuo, também com os olhos marejando, e digo a ele para não se importar, que talvez ela estivesse apressada ou preocupada.Ao sair, não resisto e paro para conversar. O rapaz tem 20 e poucos anos. Parou de estudar e há quatro anos trabalha. Adora trabalhar. Trocamos um pouco impressões sobre a vida, sobre o trabalho. E eu, mãe que sou, não me controlo e conto: “Eu tenho uma filha com síndrome de Down!. “Ah é, que legal, quantos anos ela tem?”

A reação da senhora me fez lembrar que a vida é dinâmica e multifacetada. Ao mesmo tempo em que as pessoas com deficiência ganham visibilidade social – seja estudando nas escolas, seja ocupando postos de trabalho -, uma questão surge e ressurge na mesma medida em que elas se fazem mais presentes e ativas: até que ponto são vistas e tratadas como seres humanos?

Até que ponto nós as enxergamos como pessoas que têm expectativas e sonhos muito parecidos com os de qualquer um? Até que ponto não projetamos sobre as pessoas com deficiência visões pré-concebidas sobre suas supostas limitações?

O comportamento da senhora – livre de qualquer julgamento, afinal todos temos nossos maus dias e preocupações -, me fez pensar que a inclusão não se resume ao maior número de pessoas com deficiência no mercado de trabalho ou ao aumento das matrículas nas escolas.

Certamente, essas são dimensões importantes, representam avanços sociais relevantes, afinal há alguns anos (nem tantos assim) elas viviam trancafiadas em casa.

Apesar disso, o desafio que persiste a cada um de nós é enxergar toda pessoa como ser humano e tratá-la como tal. Com respeito, dignidade e afeto, materializando, nos relacionamentos cotidianos, o reconhecimento da diferença pela igualdade: ou seja, num tratamento igual a qualquer um com que nos relacionemos, independentemente de quem seja ele – porteiro do prédio, gerente do banco, vizinho, vendedor de uma loja. Com ou sem deficiência. Preto ou branco. Afinal, o que está em jogo na inclusão é a expressão de nossa humanidade no sentido mais amplo e profundo.

Fonte: asn.blog.br

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